Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Na vida não há erratas

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.11.09

Cá vim abrir as janelas para deixar entrar este sol breve. Um vento suave agita as plantas do terraço que me preparo para regar.

 

Hoje liguei o rádio e ainda apanhei os últimos minutos d' O Amor é de Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, na Antena 1.

Falavam de casamento gay e da posição diversa dos dois grupos, os que são a favor e os que são contra. Júlio Machado Vaz coloca-se na posição "a favor" e aceita que se trata de uma questão de estatuto, realmente. Mas que numa fase em que a família tradicional, aquela visão romântica de família nuclear, se desmoronou, em que as famílias se alargaram para os teus filhos, os meus filhos e os nossos filhos, o casamento gay é apenas mais uma inovação inevitável. Também afirmou que ainda não tinha ouvido um argumento válido da posição contra. Que mais facilmente aceitava quem defendia a proibição do divórcio, por exemplo. Que, pelo menos, era coerente.

 

Mas o que me incomodou foi aquela classificação da opinião contra, como sendo mais individualista. Será isso que andei a transmitir e a defender, interrogo-me, mesmo sabendo que poucos terão lido as minhas opiniões. É o individualismo que ando a transmitir aqui?

Só vemos o que queremos ver. Ou não vemos o que ainda não estamos preparados para ver.

 

Terei eu ainda aquela visão romântica de família nuclear, estável? Mmmm... isso já só nos filmes dos anos 30 e 40, ou nalgumas excepções que conheço. Será então uma visão estática ou rígida do casamento? Sem querer ser cínica mas acabando por sê-lo (o meu terrível lado racional): até hoje não considerava estático ou rígido valorizar aquele pormenor da diferença dos sexos. Esse pormenor requerido era, a meu ver, a condição prévia para casar.

Outro pormenor ainda: será que é o casamento o que a maioria do grupo dos que se definem homossexuais pretende? Será essa a modalidade que melhor defende os seus direitos? Ou será porque é a única que lhes abre a possibilidade de adoptar?

 

Na verdade, foi o meu lado racional que me entusiasmou no debate. É redutor, é uma perspectiva incompleta, irremediavelmente incompleta, porque se trata aqui de pessoas e das suas vidas.

O meu lado emocional, e o  afectivo também, quer ver toda a gente feliz, realizando-se plenamente em todas as áreas fundamentais da sua vida.

E a minha natureza essencial é avessa a decisões globais sobre a vida de uma pessoa. Uma sociedade civilizada e evoluída asseguraria o maior equilíbrio possível em relação aos direitos e deveres dos seus cidadãos, a possibilidade de se realizarem plenamente. Uma sociedade assim não iria interferir abusivamente na vida de cada um, tratá-lo-ia com respeito, como um adulto.

 

Assim, tenho mesmo de aceitar que, contrariamente à minha natureza essencial, acabei por reduzir a minha posição a argumentos racionais, esquecendo os argumentos emocionais e afectivos. É que, como também diz Júlio Machado Vaz, é uma questão ao nível do simbólico. E quando se trata de questões sociais, entra sempre o plano do simbólico. 

É por isso que não me agradaria nada ver esta questão em referendo. E talvez por isso tenha defendido que a proposta foi desde o início mal apresentada: como uma bandeira política, uma questão fracturante. E agora, uma manobra de diversão para distrair os cidadãos de questões mais urgentes, a sua sobrevivência.

 

Na vida não há erratas. É por isso que deveríamos encará-la como um espaço-tempo de reflexão e de consciência. De aceitação das diferenças, da possibilidade de cada um se sentir bem na sua pele, na sua natureza, e ser respeitado tal como é. Quando alguém se sente bem na sua diferença, na sua individualidade, não necessita da aprovação social. É nesse sentido que a sociedade deveria caminhar. 

Mas não, numa sociedade-espectáculo como a nossa, em que se interfere abusivamente na escolha de vida de cada um, e que anda sempre a reboque das outras, desta vez é a Espanha, não conseguimos construir uma modalidade mais interessante do que essa, que não colida com as instituições, com a tradição, e ainda se arrisque a ver-se submetida à tal aprovação social.

 

Sim, talvez a minha perspectiva seja mesmo racional e individualista, assumidamente individualista, no sentido em que defendo a posição de cada indivíduo e do seu valor intrínseco. A sociedade de que aqui estou a falar é uma possível sociedade ideal, e nem sei se é para lá que estamos a caminhar.

O mais provável é que caminhemos ali para um 1984 e o Orwell é que tinha razão. E como não havia de ser? O Orwell viu mais à frente, percebeu os sinais do tempo e foi só alinhá-los. Com os dados sociológicos e históricos que recolheu, e as experiências que viveu, foi esse mundo que viu, massas obedientes, anestesiadas, apáticas, que servem um poder centralizado que tudo controla. Um poder que interfere em toda a vida individual.

 

Um bom domingo e uma boa semana!

 

 

publicado às 13:18


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D